Novembro 9, 2009

era uma vez um muro que antes não existia e depois foi derrubado
. há momentos em que parece que a refundação é inevitável. os sinais abundam, a multidão está na rua, ouvem-se slogans, elementos que constituem um vórtice que sugere revolução. nada será como antes, sente-se ou crê-se isto. porém, ao contrário do que tende a ser admitido em tais circunstâncias, na vida não se tem acesso ao ground zero, o momento a partir do qual se edifica a alternativa, inteira e sem avesso. a ressurreição é prerrogativa dos deuses. e ctrl alt del ou reset são funções maquinais para reiniciar o mesmo. tal como é vivida, a vida é continuação e o espectro do regresso. o passado sucede como fantasma. por motivos e com enredos diferentes, é assim em sonnenallee, good bye lenin! e kleinruppin forever, filmes realizados respectivamente por leander haußmann, wolfgang becker e carsten fiebeler. mas também é assim em die fetten jahre sind vorbei, filme realizado por hans weingartner. em todos percebe-se a nostalgia e a vingança do passado, no sentido em que o passado acabou – o passado está sempre a acabar – e a vida prossegue. a vida é um combate contra o tempo sob o regime dos tempos. daí que o passado se vingue mais vezes como regresso do que como nostalgia. como exemplo, esta hipótese é expressa no fim de die stille nach dem schuß, filme realizado por volker schlöndorff. aí a vida de rita tem um fim, mas até ao fim é continuação sob o espectro do regresso e da consequência do regresso. por conferir unidade à narrativa biográfica e à identidade dela, a culpa – uma extensão do passado – é fatal. entretanto, em todos os filmes referidos, um muro foi derrubado.

Novembro 9, 2009

uma diferença
. catch 22 e befehl 101 são regras marciais que, atendendo à relação entre a vida e a morte, pretendem regular a loucura por via da contenção, aquela, e administrar a loucura por via da imposição, esta. a diferença fundamental entre uma e outra é mais do que aritmética, é a diferença entre a plausibilidade da ficção, como expressa no romance de heller, e a violência concretizada por um estado, como sucedeu no cerco da ddr ao muro erigido em berlin. lição histórica? nenhum estado subsiste duradouramente montado sobre o medo, contra a aspiração à liberdade, a vida arriscada, a vitalidade.

Novembro 9, 2009
beijo honecker brejnev

east of eden, um fim sem requiem
. hoje podemos experimentar fascínio por símbolos da ddr – estado que já não há -, símbolos como o trabant, o automóvel, ou o chapéu dos ampelmännchen, as figuras dos semáforos para peões. também podemos rir da imagem de honecker e бре́жнев a beijarem-se. não obstante a distância ao tempo e à vivência que tais símbolos e imagem significavam, que esses fascínio e riso não sejam derivados da indulgência ou do olvido em relação à experiência do «socialismo real». que o encantamento pela estética retro ou pela memorabilia kitsch da ddr não iluda que, apesar do objectivo manifestado e de algumas consequências da sua prossecução em termos de direitos sociais, o «socialismo real» assentou num dispositivo de opressão e repressão, materializado em instituições e acções de condicionamento e controlo sistemáticas, orientadas para o encarceramento de expressões e gestos através do medo e de processos de instigação de temor, numa negação absoluta e organizada do estatuto fundamental da liberdade, nomeadamente de quem defendia ou ousava a diferença em relação ao padrão ditado pela doutrina e pela burocracia do estado, ambas abrigadas por um pensamento que tinha a pretensão de ser mágico, mas cuja realidade construída sob e sobre esse mesmo pensamento não era, nunca foi, maravilhosa.

Novembro 9, 2009
Berliner Mauer (curriculum vitae)

“não é verdade, disse marie, que as pessoas precisem de ausência e de solidão. não é verdade. tu tens é medo, e eu não sei de quê. sempre foste um pouco distante, isso vi eu bem, mas agora pareces estar perante um limiar que não ousas transpor”.
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schießbefehl
. a ostalgie é possível apenas a quem sobrevive(u). em berlin, houve anos em que não se podia passar o posto fronteiriço de bornholmer straße como uma noite do outono de mil novecentos e oitenta e nove recomeçou a poder passar-se, à vontade. à diferença que houve nessa noite chama-se ousadia, um dos nomes da liberdade, não se chama fim.

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* w. g. sebald, austerlitz, lisboa, editorial teorema, 2004 (2001), p. 201.

Novembro 9, 2009
muro de berlim (checkpoint charlie - 1961-10-27)

studio am stacheldraht, iii
. qualquer limite tem pelo menos dois lados e é suportado pela violência e pela resistência de ambos, até à cedência ou à desistência de pelo menos um deles.

Novembro 9, 2009
muro de berlim (02)

studio am stacheldraht, ii
. em berlin, em agosto de mil novecentos e sessenta e um (e até novembro de mil novecentos e oitenta e nove), o corte violento do chão e a violência da vigilância desse corte separaram corpos, porém não tanto que impedissem a comunidade sobre um e outra.

Novembro 9, 2009
muro de berlim

studio am stacheldraht, i
. a função de qualquer fronteira é o limite, não é o horizonte. a fronteira corresponde ao corte político do horizonte, é a determinação e a fixação desse corte e a contracção humana que obriga contra ele, o que, pelo menos em dois sentidos – o de entrada e o de saída -, significa a limitação do espaço de liberdade. seja como for, sobre qualquer fronteira subsistem dois riscos, o que a define e o que a desafia, aquele inscrito no chão e manifesto, este inscrito nos corpos e sob disposição. pelo que, em longue durée, por ter sobretudo um valor de uso, a fronteira que impede o trânsito dos corpos tem uma função inútil. à semelhança da porta, a fronteira serve para ser passada e o efeito de limiar, associado à contenção que gera pelo fechamento, desvanece-se. a amplitude ressurge, o que é além revela-se. não por acaso, na história os horizontes tendem a naturalizar-se, são onde, pela visão ou pela imaginação, o corpo alcança e além. resulta disto que as fronteiras são limites precários, condicionados pela hipótese de passagem que criam e pelo intervalo histórico durante o qual é possível administrar tal hipótese. neste sentido, qualquer enunciado sobre a impossibilidade de passar uma fronteira é um enunciado necessariamente datado, porque, apesar de dobrado em muros, o mundo continua, além, continua sempre, e não pode ser confinado por alvenaria.

Setembro 11, 2009

de amicitia
. no princípio a amizade é um modo de proximidade, porventura de partilha e de cumplicidade, porém não necessariamente de partilha e de cumplicidade, e implica corpos. por mais reservada que seja a proximidade, a amizade não é intimidade. se a proximidade resistir às distâncias, sobra o respeito, a condição e a propriedade inevitável de qualquer amizade. ainda assim o respeito não obriga a amizade.

Setembro 9, 2009

well, shake it up, baby, now
. hoje a questão não é nostálgica, é arqueológica. o motivo é tecnológico e foi ele que permitiu a passagem a limpo da discografia d’the beatles. please please me, o primeiro álbum d’the beatles, data de mil novecentos e sessenta e três. isto é um pormenor. o que releva é que «twist and shout» faz parte desse álbum. «twist and shout» tem acordes curtos, riffs sincopados. mas o que é bonito é a canção ser gritada. há quarenta e seis anos já se gritava para acompanhar a electricidade. para quem nasceu depois de «twist and shout», tornou-se cada vez mais evidente que a remissão será eléctrica ou não será. será necessariamente gritada.

Maio 27, 2009
memorial, ii. a memória tende a sobrepor-se às condições tanto da culpa quanto do relato.