imago. esta suspensão sub specie æternitatis cheira a morte.
Maio 28, 2010
eu, outros, serestar os mesmos nove círculos. i myself am hell, escreveu john milton, em paradise lost. je me crois en enfer, donc j’y suis, escreveu rimbaud, em une saison en enfer. l’enfer, c’est les autres, escreveu jean-paul sartre, em huis-clos. todos os infernos são só um.
Maio 12, 2010
do mal que não é banal. esta frase do apocalipse, “ai dos que vivem na terra e no mar, porque o demónio desceu sobre vós, cheio de furor, sabendo que já tem pouco tempo”*, surge no capítulo em que é relatada a derrota do mal na batalha travada no céu. na sequência de tal derrota, o diabo precipitou-se, caiu perdido e, através da queda, arrastando consigo a perdição, domiciliou o mal no chão. o mais relevante na frase não é o alerta decorrente da queda do mal sobre a terra, da aproximação do mal dos mortais, é o aviso agravado em função da escassez de tempo do demónio caído. ou seja, a gravidade não é apenas o mal estar entre nós, é o mal estar entre nós condicionado pela escassez de tempo, porque o mal com pouco tempo é um mal superlativo, apenas com tempo para ser mal, em estado bruto e torrencial, sem oportunidade para ponderação e ser mal melhor.
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* apocalipse, capítulo doze, versículo doze.
Abril 27, 2010
“o homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. a ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. e a ironia atravessa dois estádios: o estádio marcado por sócrates, quando disse «sei só que nada sei», e o estádio marcado por sanches, quando disse «nem sei se nada sei». o primeiro passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós dogmaticamente, e todo o homem superior o dá e atinge. o segundo passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós e da nossa dúvida, e poucos homens o têm atingido na curta extensão já tão longa do tempo que, humanidade, temos visto o sol e a noite sobre a vária superfície da terra.”*
o estádio segundo. a edição princeps de quod nihil scitur compreende uma dissertação irónica de cem páginas. a abertura, nec unum hoc scio, me nihil scire, é imediatamente desconcertante. sanches começa por declarar que sequer sabe que nada sabe. é um enunciado de partida, reportado a si, que define uma condição de ignorância, porém uma condição declarada, o que significa consciência e assunção de limites, ainda que limites incertos. à semelhança da abertura, o encerramento de quod nihil scitur é também desconcertante. entre a despedida – vale – e imediatamente antes do fim – finis – surge a interpelação quid?, não a declaração assertiva quod erat demonstrandum, a inscrição que sói encerrar qualquer dissertatio da época. ou seja, mesmo no final da digressão que fez, sanches propôs a interrogação, modo de colocar e motivar a dúvida, com o propósito de, inclusive no limite do que escreveu, assentar a dúvida como dispositivo cognitivo e fundamento do conhecimento. que isto suscite o riso mais do que o conforto é um indício do valor do exercício tentado.
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* bernardo soares, livro do desassossego, lisboa, assírio & alvim, 1998, p. 165.
Março 29, 2010
vida, o limite, ii. numa das anedotas cínicas clássicas cujo registo escrito chegou até à actualidade, αντισθένης clamou por algo que o libertasse das dores que padecia. διογένης indicou-lhe e ofereceu-lhe um punhal, o que αντισθένης recusou, retorquindo que pretendia acabar com as dores, não terminar com a vida. o amor à vida, à vida própria, talvez seja uma revelação de fraqueza e apego às coisas e aos outros – vício -, talvez seja uma revelação de resistência e combate contra a determinação alheia – virtude. não se sabe, a equação admite resposta pessoal.

Publicado por 3ás 


