estranho perfeito. até onde alguém está disponível a ir pela dor para desencarcerar-se do desespero?, esta é a pergunta sobre a qual assenta downloading nancy, filme realizado por johan renck. pela resposta inscrita na narrativa cinematográfica, percebe-se que não basta a vontade. por a vontade carecer de confirmação através de acto, o plano de salvação de nancy passou pela convocação e pela participação de um ajudante. liberdade, solidariedade e dor combinaram-se na missão. fatal. nancy e louis – o ajudante que ela conheceu através da internet – foram pelo fim que prefiguravam, para o mesmo fim, sacrificial. a concretização brutal da evasão de nancy foi antecedida de um ensaio de expiação, assente em violência, sexual também. tratou-se simultaneamente de uma renúncia ao abandono – o marido de nancy era pateticamente obcecado por golfe – e de uma convocação de saída. porém o amor intrometeu-se e foi esse sentimento que deteve o estrangulamento de nancy por louis. deteve provisoriamente. porque o balanço do plano já não permitia o resgate, a consumação do prenúncio já não podia ser evitada.
Janeiro 7, 2010
estranho perfeito. até onde alguém está disponível a ir pela dor para desencarcerar-se do desespero?, esta é a pergunta sobre a qual assenta downloading nancy, filme realizado por johan renck. pela resposta inscrita na narrativa cinematográfica, percebe-se que não basta a vontade. por a vontade carecer de confirmação através de acto, o plano de salvação de nancy passou pela convocação e pela participação de um ajudante. liberdade, solidariedade e dor combinaram-se na missão. fatal. nancy e louis – o ajudante que ela conheceu através da internet – foram pelo fim que prefiguravam, para o mesmo fim, sacrificial. a concretização brutal da evasão de nancy foi antecedida de um ensaio de expiação, assente em violência, sexual também. tratou-se simultaneamente de uma renúncia ao abandono – o marido de nancy era pateticamente obcecado por golfe – e de uma convocação de saída. porém o amor intrometeu-se e foi esse sentimento que deteve o estrangulamento de nancy por louis. deteve provisoriamente. porque o balanço do plano já não permitia o resgate, a consumação do prenúncio já não podia ser evitada.
Janeiro 6, 2010
i’ll eat you up! conforme exposto em where the wild things are, o desajustamento pessoal começa cedo e em casa, o primeiro lugar onde não é possível ser rei por já haver aí quem seja – rei pode ser um e um só. neste sentido, a alternativa – ser lobo dentro de casa – é um problema de habitação – que é o mesmo que problema de convívio -, embora haja quem pretenda que é sobretudo um problema de hábito e habituação – portanto de consonância e estabelecimento psicológico. esta assunção tende a iludir o que é fundamental no caso. porque, visto, apesar da associação tão fácil quão equívoca entre infantil e selvagem, o caso de max é simplesmente de vida, uma vida e outras vidas no mesmo lugar, onde, entre a evasão e o regresso, há coisas estranhas e envolventes à vista.
Janeiro 5, 2010
let the wild rumpus start! em relação a where the wild things are releva menos o filme, realizado por spike jonze, do que a obra subjacente e motivadora, o livro escrito e ilustrado por maurice sendak. ainda assim resultou maravilhosa a transposição dos monstros para o ritmo de filme, a animação deles à cadência de vinte e quatro quadros por segundo, porque o lugar onde a ausência de max acontece transforma-se num lugar que é possível reconhecer imediatamente, um lugar vivido e assistido, portanto próximo ou revelado. a roda do exterior além das páginas do livro de sendak é decifrada assim, na ronda seguinte, deflagrando a imaginação pelo movimento que mostra. mas, pela exibição do que pode ser a translação de alguém entre mundos, a parte maior do filme é ainda desafio à fantasia, por concretizar que cada lugar contém mais lugares do que aqueles que qualquer pessoa pode ocupar e administrar no mesmo instante. em termos fundamentais, um corpo pode ser pouco mas é suficiente para suportar o que pode ser mais. há quem proponha os nomes infância e loucura para identificar o suplemento de disponibilidade que se manifesta através do corpo de max. que seja. significa sobretudo que cada um de nós não está só e que diante do mesmo facto podemos ter alcances e juízos distintos. é assim, pela diferença, pela constatação da diferença, que se arruma a cabeça e começa a regressar a casa.
Novembro 9, 2009
era uma vez um muro que antes não existia e depois foi derrubado. há momentos em que parece que a refundação é inevitável. os sinais abundam, a multidão está na rua, ouvem-se slogans, elementos que constituem um vórtice que sugere revolução. nada será como antes, sente-se ou crê-se isto. porém, ao contrário do que tende a ser admitido em tais circunstâncias, na vida não se tem acesso ao ground zero, o momento a partir do qual se edifica a alternativa, inteira e sem avesso. a ressurreição é prerrogativa dos deuses. e ctrl alt del ou reset são funções maquinais para reiniciar o mesmo. tal como é vivida, a vida é continuação e o espectro do regresso. o passado sucede como fantasma. por motivos e com enredos diferentes, é assim em sonnenallee, good bye lenin! e kleinruppin forever, filmes realizados respectivamente por leander haußmann, wolfgang becker e carsten fiebeler. mas também é assim em die fetten jahre sind vorbei, filme realizado por hans weingartner. em todos percebe-se a nostalgia e a vingança do passado, no sentido em que o passado acabou – o passado está sempre a acabar – e a vida prossegue. a vida é um combate contra o tempo sob o regime dos tempos. daí que o passado se vingue mais vezes como regresso do que como nostalgia. como exemplo, esta hipótese é expressa no fim de die stille nach dem schuß, filme realizado por volker schlöndorff. aí a vida de rita tem um fim, mas até ao fim é continuação sob o espectro do regresso e da consequência do regresso. por conferir unidade à narrativa biográfica e à identidade dela, a culpa – uma extensão do passado – é fatal. entretanto, em todos os filmes referidos, um muro foi derrubado.
Novembro 9, 2009
uma diferença. catch 22 e befehl 101 são regras marciais que, atendendo à relação entre a vida e a morte, pretendem regular a loucura por via da contenção, aquela, e administrar a loucura por via da imposição, esta. a diferença fundamental entre uma e outra é mais do que aritmética, é a diferença entre a plausibilidade da ficção, como expressa no romance de heller, e a violência concretizada por um estado, como sucedeu no cerco da ddr ao muro erigido em berlin. lição histórica? nenhum estado subsiste duradouramente montado sobre o medo, contra a aspiração à liberdade, a vida arriscada, a vitalidade.
Novembro 9, 2009

east of eden, um fim sem requiem. hoje podemos experimentar fascínio por símbolos da ddr – estado que já não há -, símbolos como o trabant, o automóvel, ou o chapéu dos ampelmännchen, as figuras dos semáforos para peões. também podemos rir da imagem de honecker e бре́жнев a beijarem-se. não obstante a distância ao tempo e à vivência que tais símbolos e imagem significavam, que esses fascínio e riso não sejam derivados da indulgência ou do olvido em relação à experiência do «socialismo real». que o encantamento pela estética retro ou pela memorabilia kitsch da ddr não iluda que, apesar do objectivo manifestado e de algumas consequências da sua prossecução em termos de direitos sociais, o «socialismo real» assentou num dispositivo de opressão e repressão, materializado em instituições e acções de condicionamento e controlo sistemáticas, orientadas para o encarceramento de expressões e gestos através do medo e de processos de instigação de temor, numa negação absoluta e organizada do estatuto fundamental da liberdade, nomeadamente de quem defendia ou ousava a diferença em relação ao padrão ditado pela doutrina e pela burocracia do estado, ambas abrigadas por um pensamento que tinha a pretensão de ser mágico, mas cuja realidade construída sob e sobre esse mesmo pensamento não era, nunca foi, maravilhosa.


Publicado por 3ás 


