Dezembro 8, 2010

imago
. esta suspensão sub specie æternitatis cheira a morte.
fotografia © annie leibovitz

Setembro 25, 2010

dinâmica
. os modos de narrativa transformaram-se a partir do momento em que foi possível animar as imagens. grosso modo, o desafio passou a ser de ritmo, sobre como compatibilizar o exercício de revelação – supostamente mais autêntico ou real, portanto, embora mais suportado em imagens, menos imaginado – com a necessidade de tensão que resulta da demora da revelação. no fundamental o princípio e o fim passaram a ser limites independentes da ordem em que são apresentados ou expostos, o que significa que o princípio e o fim deixaram de corresponder necessariamente ao início e ao encerramento da narrativa. o fluxo passou a permitir posições e arrumações dos elementos e momentos narrativos distintos da sequência reportada, proporcionando modos de revelação inéditos. todavia, como sucede em la folie du docteur tube – filme realizado por abel gance -, contar uma história continua a ser também como contar uma história.

Setembro 6, 2010

da cinestesia à sinestesia
. a experiência do cinema em sala é um dos modos de apogeu da modernidade. o assento é individual mas o motivo da presença do espectador é comum e suscitado por algo que transcende a pessoa dele. sucede o mesmo em outras formas e modalidades de experiência, porém a organização da experiência do cinema em sala, enquanto recepção de um produto cultural num espaço arrumado por coordenadas, surge de modo regular, frequente e em lugares diferentes. o acesso à sala de cinema é por franquia individual, franquia que se compra. adquire-se o direito de ver o filme através de um preço e de um pagamento. a solidão do espectador – a individualidade -, a partilha do espectáculo – a comunidade -, a venda e a compra do bilhete – o capitalismo -, a reprodução mecânica e tecnológica do mesmo e único produto cultural – o industrialismo -, as regulação e vigilância públicas da exibição do filme – o estado -, tudo isto é prenunciado e inscrito em qualquer bilhete que permite aceder a uma cadeira numa sala de cinema. na prática o complexo referido – enquanto película social – é um filme como condição da fruição de outro filme, o que significa que quem na condição de espectador em sala de cinema participa simultaneamente em dois filmes, aquele que vê e aquele em que é visto para poder ver aquele que vê.

Julho 17, 2010

отма
. quatro meninas, uma dinastia, o mesmo destino, igual ao do menino que era irmão delas. chamaram-lhe revolução, podiam ter-lhe chamado estação plúmbea que matou as meninas романова.

Junho 8, 2010

flashback
. há algo que reside já nas coisas antes de as coisas serem, a possibilidade delas, a potência de serem.

Maio 28, 2010

eu, outros, serestar os mesmos nove círculos
. i myself am hell, escreveu john milton, em paradise lost. je me crois en enfer, donc j’y suis, escreveu rimbaud, em une saison en enfer. l’enfer, c’est les autres, escreveu jean-paul sartre, em huis-clos. todos os infernos são só um.

Maio 12, 2010

do mal que não é banal
. esta frase do apocalipse, “ai dos que vivem na terra e no mar, porque o demónio desceu sobre vós, cheio de furor, sabendo que já tem pouco tempo”*, surge no capítulo em que é relatada a derrota do mal na batalha travada no céu. na sequência de tal derrota, o diabo precipitou-se, caiu perdido e, através da queda, arrastando consigo a perdição, domiciliou o mal no chão. o mais relevante na frase não é o alerta decorrente da queda do mal sobre a terra, da aproximação do mal dos mortais, é o aviso agravado em função da escassez de tempo do demónio caído. ou seja, a gravidade não é apenas o mal estar entre nós, é o mal estar entre nós condicionado pela escassez de tempo, porque o mal com pouco tempo é um mal superlativo, apenas com tempo para ser mal, em estado bruto e torrencial, sem oportunidade para ponderação e ser mal melhor.

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* apocalipse, capítulo doze, versículo doze.

Abril 27, 2010
“o homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. a ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. e a ironia atravessa dois estádios: o estádio marcado por sócrates, quando disse «sei só que nada sei», e o estádio marcado por sanches, quando disse «nem sei se nada sei». o primeiro passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós dogmaticamente, e todo o homem superior o dá e atinge. o segundo passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós e da nossa dúvida, e poucos homens o têm atingido na curta extensão já tão longa do tempo que, humanidade, temos visto o sol e a noite sobre a vária superfície da terra.”*


o estádio segundo
. a edição princeps de quod nihil scitur compreende uma dissertação irónica de cem páginas. a abertura, nec unum hoc scio, me nihil scire, é imediatamente desconcertante. sanches começa por declarar que sequer sabe que nada sabe. é um enunciado de partida, reportado a si, que define uma condição de ignorância, porém uma condição declarada, o que significa consciência e assunção de limites, ainda que limites incertos. à semelhança da abertura, o encerramento de quod nihil scitur é também desconcertante. entre a despedida – vale – e imediatamente antes do fim – finis – surge a interpelação quid?, não a declaração assertiva quod erat demonstrandum, a inscrição que sói encerrar qualquer dissertatio da época. ou seja, mesmo no final da digressão que fez, sanches propôs a interrogação, modo de colocar e motivar a dúvida, com o propósito de, inclusive no limite do que escreveu, assentar a dúvida como dispositivo cognitivo e fundamento do conhecimento. que isto suscite o riso mais do que o conforto é um indício do valor do exercício tentado.

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* bernardo soares, livro do desassossego, lisboa, assírio & alvim, 1998, p. 165.


Abril 6, 2010

quod nihil scitur
. qual é o valor da insciência?, qual pode ser?, se tem o preço da ironia.

Março 29, 2010

vida, o limite, ii
. numa das anedotas cínicas clássicas cujo registo escrito chegou até à actualidade, αντισθένης clamou por algo que o libertasse das dores que padecia. διογένης indicou-lhe e ofereceu-lhe um punhal, o que αντισθένης recusou, retorquindo que pretendia acabar com as dores, não terminar com a vida. o amor à vida, à vida própria, talvez seja uma revelação de fraqueza e apego às coisas e aos outros – vício -, talvez seja uma revelação de resistência e combate contra a determinação alheia – virtude. não se sabe, a equação admite resposta pessoal.

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